|
CAPA
- MERCADO
Você compra chinês?
Eles são vendidos no
mundo inteiro a preços bem atraentes. Mas será
que valem a pena? Testamos três ofertas
EDIÇÃO: ANA FLÁVIA FURLAN
Atraídas por impostos baixos e mão-de-obra
barata, empresas de todo o mundo se instalaram na China. Com
a indústria automobilística não foi diferente.
De autopeças a carros inteiros quase tudo já
é montado naquele país. Com o tempo, o inevitável
aconteceu. Os chineses perceberam que já tinham know
how suficiente para produzir seus próprios produtos
a preços competitivos.
A Europa começa a “perceber” o tamanho
do problema que isso pode significar. Que os chineses têm
preço bom é indiscutível. Mas e a qualidade?
É o que atualmente perguntam os consumidores do velho
continente. Para tentar elucidar essa questão, a Revista
Quattroruote testou três produtos chineses: um carro,
uma scooter e um jogo de pneus. Será que eles já
têm condições de assustar os concorrentes?
No Brasil, os chineses venderam cerca de 700 mil pneus no
primeiro semestre e, no Salão do Automóvel,
a China estará presente junto à SSsangyong,
que passa a representar a importação da marca
Chana, parceira da Suzuki na Ásia e que pretende apresentar
duas minivans por aqui. Certamente, já é hora
de conhecermos melhor os tais produtos chineses.
A China está colocando fogo na economia mundial. Exportando
para para inúmeros países a preços para
lá de competitivos, ela vem ganhando cada vez mais
espaço no mercado global. E a Europa não escapa
da febre asiática. Na Itália, por exemplo, os
chineses vendem de tudo; de tomate a Ipod. Já dá
para imaginar que, de uma hora para outra, os italianos estarão
comprando também carros do país emergente que
mais se desenvolve no mundo.
Um deles é o Zhonghua, que você vê nestas
páginas. Um automóvel do porte do Passat, com
motor 2.0 de 129 cv, que alcança 190 km/h e acelera
de zero a 100 km/h em 13,8 segundos. Originalmente destinado
aos executivos chineses, o Zhonghua tem o design da carroceria
elaborado pela Italdesign nove anos atrás. Segundo
os dirigentes da Brilliance (o grupo chinês que controla
a marca Zhonghua) o modelo deve estrear no exigente mercado
europeu em breve. O feliz trabalho do mago Giugiaro resiste
ao tempo (ajudado por uma recente reestilização
do estúdio Pininfarina) e o habitáculo parece
luxuoso, mas um exame mais profundo faz transparecer o quanto
seu projeto é obsoleto. Olhado mais de perto, o acabamento
revela desalinhamentos, plásticos rígidos, jogos
no painel e um console central sombrio.
É evidente a falta de qualquer aparato de segurança
passiva e de rigidez torcional. As longarinas mostram-se ineficientes.
Falta rigidez, falta continuidade, falta capacidade de absorver
a maioria dos impactos. Os revestimentos acústicos
são insuficientes e não isolam a repercussão
dos barulhos de suspensão e motor.
A suspensão é sofisticada mas os quadriláteros
são altos na frente e há muito jogo na parte
de baixo. As ligações da suspensão também
não são boas, há muitas fixações
e muitas chapas sobrepostas, comprometendo a rigidez. Em suma,
a segurança é um quesito que precisa melhorar
nos modelos chineses. Um outro carro de mesma origem, o Jiangling
Landwind, que deveria ser o primeiro 4x4 chinês no mercado
italiano, escorregou no crash test: saiu desastrosamente de
uma prova de impacto do Adac, clube automobilístico
alemão. Depois desse incidente, seu lançamento
foi adiado.
Mas voltemos ao Zhonghua. Seu catalisador é pequeno
e muito distante das válvulas de escape. Os semi-eixos
têm comprimento diferente, sem ligação
intermediária. Um automóvel assim, definitivamente,
não pode ser vendido na Europa. E de fato não
o será em breve, apesar do que anuncia a fábrica,
que apresentou uma versão atualizada desse modelo no
Salão de Frankfurt de 2005: “esse carro custará,
na Europa, a metade de uma BMW ou de uma Mercedes”,
prometeram os executivos na época. Cerca de 18 a 20
mil euros, era a hipótese inicial. Mas, ainda assim,
o Zhonghua, por hora, não preocupa nenhum fabricante
europeu.
A bordo, a posição de dirigir é bastante
boa, centrada, mas um tanto penalizada pela inclinação
lateral do volante e pelos comandos pouco racionais. O desempenho
é apenas suficiente e a dirigibilidade recorda os carros
dos anos 80. Nas velocidades mais altas, o modelo mostra uma
tendência clara à saída de frente, com
uma entrada lenta nas curvas e uma resposta de esterço
em dois tempos. Por outro lado, o comportamento traseiro é
bom, com saída progressiva e fácil de controlar.
No teste de estabilidade, o sedã se mostrou fácil
de domar, apesar do volante muito desmultiplicado, da saída
de frente e das respostas lentas. Os freios decepcionam em
progressividade, em modularidade e, principalmente, no espaço
de arrasto. Inaceitável.
| |
Brilliance
Zhonghua |
CF
Moto Urban R |
 |
 |
 |
| 45%
mais barato que um Michelin equivalente
O modelo LM A2 da marca Linglong custa
quase a metade de um pneu semelhante de uma marca tradicional
e garante boa aderência com um leve incremento
no consumo de combustível. Para que precisa economizar
pode valer a pena, mas é bom salientar que não
fizemos teste de longa duração. se sua
vida útil for muito baixa pode não compensar. |
32%
mais barato que um VW Passat
Melhor esperar. É verdade que, em preço,
o Zhonghua não tem rivais: custa
32% menos do que um Passat, por exemplo. Mas as máquinas
são incomparáveis, principalmente se considerarmos
que os concorrentes europeus, americanos, japoneses
e coreanos atendem à norma Euro4 e têm,
pelo menos, quatro estrelas no crash tes da EuroNCap. |
39%
mais barata que uma Honda SH 150
Se você fechar um olho para o desempenho, sim.
Verificando a oferta das outras empresas nota-se que
os modelos entre 150-200 cm³ têm preço,
em média, € 1.000 superior ao dela. Mesmo
os concorrentes chineses de marcas como Kymco e Sym
têm preços mais altos e menor quantidade
de equipamentos. Resta alguma dúvida sobre seu
valor no mercado de usados. Mas o importador garante
assistência técnica, o que fá é
uma tranqüilidade. |
O pequeno chinês objeto desta segunda prova tem inspiração,
se assim podemos dizer. no design da Yamaha Why. A referência
estética da Urban R é também retrô,
com assento em bege e abundância de cromados.
Essa scooter apresenta falhas escandalosas ou muita ingenuidade
por parte dos projetistas. Explica-se: ao mesmo tempo em que
eles utilizaram materiais que seriam adequados apenas aos
modelos de entrada da categoria e optaram por um acabamento
discretamente refinado (apesar das soldas e fusões
estarem à altura dos concorrentes italianos), eles
adotaram na scooter um rico pacote de equipamentos de série,
que não se justifica em um projeto tão simples.
Nos 1.900 euros pedidos nas concessionárias, está
incluso, por exemplo, um bauzinho (que incorpora um apoio
para as costas) excelente para acomodar pequenos objetos,
minimizando o fato de que o espaço embaixo do banco
é suficiente apenas para carregar documentos. Ainda
de série, a Urban oferece sistema antifurto com alarme
acústico, com a vantagem de poder ser acionado a distância
e, assim, ligar a scooter sem que a chave seja inserida no
quadro.
No desempenho, as impressões sobre a Urban R não
são boas. Apesar de ser refrigerado a água e
de dispor de quatro válvulas, o motor monocilíndrico
de 153 cm3 não entusiasma no desempenho: sua velocidade
é inferior a 100 km/h, pouco para um veículo
que apesar de urbano deve, em tese, ser adequado a percorrer
pequenos trechos de estrada. O sistema de freios conta com
dois discos (dianteiro e traseiro) com pinças flutuantes.
A potência agrada, mas a modularidade não é
das melhores, já que o traseiro tende ao bloqueio.
Ou seja, falta algo para que ela agrade aos europeus.
|